Volta Quintana!

2009, um ano que não colou

12/28/2009 · 2 Comentários

o muro que vem caindo, mas é preciso compreender

O fato mais relevante para o blog foi seu possível término, para tratar de outras questões pertinentes aos saberes imediatos e retóricos. Os saberes nem eram tão saberes. Imediatas são as vontades do escriba de aparecer. Retórica, mal ou bem, vocês ainda encontram aqui. Com o possível fim do blog uma série de post’s acabou na lixeira (textos constrangedores, pseudo-difamatórios), deixando o espaço mais limpo, talvez até mais coerente.

Ainda em 2009 as questões pertinentes aos saberes imediatos e retóricos sofreram abalos nos seus alicerces: uma semente santa-mariense, conhecida nos meios livrescos (Big Phaseolus vulgaris), em conversa com outras pessoas, suspeitou que eu guardasse em minha cachola idéias nazistas, ou fascistas, ou o que foi empanado como sendo ideologia de direita. Para mim nunca disse nada, nunca foi além de algumas histórias boas de ouvir.

Lamentável é sentir inveja de não possuir uma neurose do fracasso. E eu sinto. A neurose aparece depois que as sementes, não dando em nada, sobrevivem de algumas histórias colecionadas entre uma e outra tentativa frustrada. Mas eu nem tenho coleção de histórias e nem sei o que foi tentativa ou esporte letrado. Minha inveja é a de estar um passo antes de não resultar em nada – e meu consolo é ocupar um espaço onde ninguém foi acusado de portar ideologias extravagantes porque não concordavam com o comunismo ou o que uma geração inteira plantou nas cabeças da minha província (e a outra geração, de forma avacalhada, vem aceitando).

[O contrário já aconteceu: Algumas figuras públicas foram citadas como portando ideologias tão extravagantes como o nazismo e o fascismo, a saber, muitos comunistas. Isso deixa algumas pessoas chateadas. A neurose do fracasso fica mais exposta com o anacronismo político, dizendo de outra forma: foi uma postura conveniente e complementar. Enganar-se e difamar, com o coração na mão, em prol de outra justiça, de outro mundo possível.]

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Luís Martins (1907, Rio de Janeiro, RJ, – 1981, São Paulo, SP)

12/16/2009 · Deixe um comentário

– Vou mandar passar meu coração a limpo. Há muitos, muitos anos que ele está todo embaralhado, confuso e incompreensível. Desde jovem nele fui escrevendo todas as emoções, amores, ódios, amizades, inquietações, amarguras e decepções. Está cheio de erratas, emendas, rasuras, retificações, chamadas e riscos. O que foi escrito um dia a tinta vermelha com um amor incomensurável e infinito, anos depois foi rasurado violentamente, resultando daí um borrão horroroso. Amizades tiveram que ser retificadas: “digo, indiferença”; ambições inscritas em letras maiúsculas foram emendadas com ceticismo e desalento: “aliás, cansaço ou tédio”. Por cima de ódios velhos, registrados com letra já quase imperceptível, escrevi mais tarde mensagens de amor e de esperança. Há palavras e frases traçadas em todos os sentidos, daí resultando às vezes equívocos tremendos, verdadeiros trocadilhos de sensações. Eu mesmo custo a decifrar o que quis dizer. E se eu próprio já não entendo direito meu coração, quem poderá entendê-lo? As palavras e os sentimentos amontoam-se e atropelam-se. Odes e pastorais misturam-se a fragmentos de romances, cânticos de doce lirismo estão entrelaçados a simples registros de “faits divers”. Onde ontem estava a tinta azul o diálogo de Adão e Eva ou o idílio de Romeu e Julieta, é possível que hoje apenas se veja um trecho de discurso político ou a cópia do último orçamento municipal. Em compensação, por cima de um grave tratado de psicologia, transcrevi com emoção as quadrinhas ingênuas de uma ingênua serenata… Uma balbúrdia, um inferno! Do jeito como vão as coisas, daqui a alguns anos meu coração será um imenso borrão de várias cores, que nenhum ser humano jamais decifrará. Vou mandar passá-lo a limpo e tirar várias cópias, não muitas, que hei de distribuir pelas pessoas que eu amo e que me amam. Com índices remissivos e gráficos. É possível mesmo que inclua algumas ilustrações e dois ou três retratos. Você aceita uma cópia?

Crônica publicada n’O Estado de São Paulo de 31/10/1951

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Corvo e Corso (animais distintos)

12/13/2009 · Deixe um comentário

Eu estava lendo as cartas que Simone de Beauvoir escreveu para Nelson Algren, quando um corvo desavisado e negro entrou pela janela – imediatamente interrompi a digressão (um átimo e já não estava lendo, mas pensando e acrescentando) e imaginei o corvo num prato fundo, frio e morto, servido com batatas e silencioso… O corvo se debatia não-imaginado; No canto do quarto se debatia como os corvos faziam na Córsega em 1947, segundo o relato de Simone – ou eram os corsos pobres com muito vinho tinto? O romantismo curado, existencialista e sôfrego, trazia os muitos corvos – ou os muitos corsos, ou ainda a bunda de Simone, ou ainda um resto de vinho tinto de nome agradável, mas gosto azedo – entre outros corpos, porém era a imaginação que, não cozinhando, fez o corvo levantar vôo e sumir do prato, levando junto as batatas… Bicando-me devagarzinho – êxtase sado-masoquista: literatura de cordel. A filosofia sartreana: literatura de cordel. Bicando-me o corvo existencialista supunha um território de liberdade, destituído do pensar e acrescentar, este corvo monocórdio, ridículo, não poderia entender que no quarto desde sempre – iniciada a leitura – era meu prisioneiro e fazia companhia indistinta com Simone, Nelson, Tarsila, Luís Martins, Mário de Andrade e Fernando Sabino, etc. Não em ordem cronológica.

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Inês Pedrosa – “Sexo Oral”

12/09/2009 · Deixe um comentário

Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos, que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora
os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrine,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.

Inês Pedrosa
9 de julho de 2007

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A etiqueta estrangeira

11/18/2009 · Deixe um comentário

“É uma perfeição absoluta, como que divina, o sabermos desfrutar lealmente do nosso ser”

Michel de Montaigne

Com a Europa como palco da grande guerra, ao ano de 1942, foi legado por Albert Camus – além de um argelino na resistência francesa – um livro que veio a influenciar gerações posteriores que já vivem num mundo pós-maniqueísta. A publicação de O Estrangeiro no meio de tanta destruição significou um corpo estranho, devemos compreender agora, em época de mocinhos e bandidos tão discerníveis. A influência incide ainda sobre este mundo contemporâneo, que percebemos ser existencialista, na medida em que abandona, por absoluta desnecessidade, utopias coletivistas de engenharia social. Em 1942, portanto, o Sr. Meursault está sofrendo sua vida como qualquer de nós que não compreende, na acepção mais forte do termo, valores alheios impostos pelo medo da baioneta: não é surpresa que, observando nossa geração democrática e liberal, um personagem atípico e deslocado de seu contexto mais cruel (a Guerra) revele-se tão familiar – e, de forma romântica, encontramos um mesmo tédio que não impede a ação, apenas dificulta extensas reflexões.

A história do Sr. Meursault, um homem julgado pela moral que os franceses afetaram em sua justiça, pode estar inserida em um tempo alargado pelo sem sentido. Uma tese duvidosa, como é a noção de fim da história, se admitida como válida para tal personagem ou para nós, leitores de Camus, não significará o fim da lembrança de uma moral histórica, tal como para aqueles jovens que queimaram tudo em maio de 1968.

Meursault é um perseguidor do silêncio, e sua pequena ética (direi: sua etiqueta) significa indiferença aos seres marcados pelo século passado – o século XX foi pródigo em criar certezas e slogans. Essas são ficções que pedem o grito e a anunciação. E, a todo aquele que passa incólume às agitações cotidianas, soa estranho o versar insistente sobre si mesmo. Será possível compreender este homem lacônico que pouco agride e pouco acolhe? Não há algo desumano naquilo que vive pacatamente, longe das ambições e das agonias? Albert Camus chamou o jogo da existência de absurdo, mostrou algumas regras e a falta de sentido delas, e demonstrou a inevitabilidade da perda.

Abrir a primeira página de O Estrangeiro é reconhecer-se na indiferença dos afetos. É o início do convívio com alguém muito simpático – basta não colocarmos nossa felicidade nas mãos do personagem – que responderia “sim” ou “não sei” para não chatear-se e nem multiplicar o número de mesquinharias que sempre foram o destino das relações humanas pedestres: o falar de si. Em momentos piores, o falar do outro. Poucos reconhecem a importância de se manterem calados. E, aos homens que foram condenados pela indiferença aos valores reacionários devemos prestar esta homenagem: Não abandonar apenas a moral velhaca nem deitar sorumbático como os kafkianos… Na medida do possível, devemos aproveitar um dia de sol na praia, beijar algum cabelo com gosto de sal e prestar-nos aos comentários sobre vestidos floridos. Principalmente, aproveitar o tempo de tolerância e cultivar um remendo de ética mínima, para não ser pego desprevenido no momento em que o sol forçar o dedo no gatilho – guardando para si lições melhores que a catequese.

Na primeira parte do livro, são muitos os conselhos nos atos prosaicos de Meursault, que indicam uma disposição natural para a elegância do silêncio: não multiplicar conversas desinteressantes, observar cinicamente os populares, conviver discretamente com a imoralidade, ser estoico nos momentos agradáveis que a vida nos proporciona – a etiqueta é uma síntese de experiência negativa e hábitos particulares. Porém, quando o sol insurge sua força, não há etiqueta ou moral que resista. Os tiros que Meursault dispara contra o árabe representam uma submissão, a de alguém cujos impulsos físicos perturbam com frequência os sentimentos.

“O fato de a sentença ter sido lida não às cinco da tarde mas às oito horas da noite, o fato de que poderia ter sido outra completamente diferente, de que fora determinada por homens que trocam de roupa, e que fora dada em nome de uma noção tão imprecisa quanto o povo francês (ou alemão ou chinês), tudo isto me parecia tirar muito da seriedade desta decisão. Era obrigado a reconhecer, no entanto, que, a partir do instante em que fora tomada, os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios quanto a presença desta parede ao longo da qual eu esmagava meu corpo”

Quando está preso, sujeito a tutela alheia por imposição de ser um criminoso, o personagem despe-se das etiquetas – entende nos castigos uma lógica que mesmo sendo compreensível, porque racional, não é a dele. A personagem de Camus, enquanto espera decidirem sobre sua vida – ou morte – terá apenas a lembrança saudável de seus hábitos (isso que chamo de etiqueta), agora confrontados com um moralismo que vai além da burocracia estatal; Se Joseph K. não sabe o crime que cometeu e nem o que fazer para redimir-se, à Meursault é pedido, de forma ridícula, que se curve diante da cruz de Cristo. É pedido mais: que minta para facilitar sua defesa. Pedem-lho que explique por que não chorou no enterro de sua mãe, por que não quis ver o cadáver e, até, por que não se recolheu ao túmulo por alguns minutos, após o enterro. Forçosamente, o pior estará por vir: as explicações são pedidas, de certa forma, buscando uma compreensão da justiça. Na hora do julgamento, o moralismo é revelado e as decisões tomadas implicam no destino fatalista do personagem. Antes e depois dessa decisão – caberá ao leitor saborear a condução da justiça – ainda é tempo de saber se nós, assim como Meursault, ao refletirmos sobre a condução de nossas vidas, diremos: “Estava certo de mim mesmo, certo da minha vida e desta morte que se aproximava” ou, ainda, “Tinha tido razão, ainda tinha razão, teria sempre razão”. Albert Camus não foi fraco o bastante para indicar um caminho único para o homem trilhar, sugeriu apenas que ele pudesse escolher quaisquer caminhos. A lição a ser apreendida é aquela que nos revela a exposição frágil do destino humano, e que, ao ser sintetizada pelas palavras de outro francês, acalenta um maior otimismo: “D’ailleurs, c’est toujour les autres qui meurent”.*

* O Estrangeiro / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek. – 25ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2004.

* “Por outro lado, são sempre os outros que morrem” – citando lápide de Marcel Duchamp.

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Nuvens (Jorge Luis Borges)

11/05/2009 · Deixe um comentário

Nuvens I

Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São nuvens as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também o que já está perdido.

*Tradução: Antonio Cicero (?)

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Epitáfio para literatos

10/30/2009 · Deixe um comentário

Falar dele é muito difícil. Ele cavalgava sobre os amigos e não tratava a gente tão diferente dos seus inimigos, que eram muitos – ele os cultivava e sentia certo orgulho de ser assim. Sua doçura, somente para quem convivia todos os dias, como foram naqueles anos, uma doçura que cessava e às vezes não, ele não controlava; também ser doce para ele era como cavalgar: lembrar, tocar, falar e falar muito. Nunca chorar nem demonstrar comoção, essa rudeza ampliava-lhe os inimigos – tinha-os no trabalho, em casa, nos bares, onde pode arrecadá-los. E temos sido fiéis à ele, da nossa maneira, que carrega nas nossas palavras ainda um medo… Como se ele pudesse levantar do túmulo e dizer algumas barbaridades sobre a gente, possivelmente verdadeiras, segredos e falsidades que os cavalos trazem em sua natureza.

Ele me ensinou o que eu precisava ouvir, e ensinou na hora certa. Incidem sobre os meus atos as suas avaliações, o que ele soube do mundo, e a parte pronunciável é o meu saber, a minha desolação – compartilhávamos também o modo de educação paterna que Borges teve a felicidade de receber: Os filhos é que educam os pais. Por levarmos a cabo os preceitos, sabíamos dos erros quase instantaneamente, e eles eram cometidos, pessoas acabavam magoadas, o mundo com um grande peso, mas o mundo de coisas que aconteciam de forma violenta e romântica. Nunca mais poderei agradecer-lhe (e ouvir sua resposta sarcástica pela demonstração de afeto), eu que nunca de fato o agradeci, por tudo que aprendi e que foi a sapiência da minha solidão. E sei dele podre, comido pela terra, sem mistificação… Tudo bem, um pouco há, mas o essencial para ilustrar o homem, meu amigo que não terá vaga no céu, e que disse uma vez “Me deixem apodrecer”.

Apodrece agora, longe da ressurreição, vais morar nas memórias das gentes, porque aqui só ficaram os covardes, aqui não pronunciamos o impronunciável, nossos atentados de cinismo e a crueldade, revelam: quando avançamos está visível o nosso desespero. Ele nunca desesperou, em nenhum momento ouvimos pedido de clemência: quis ser a causa de sua dor, quis praticá-la, quis sofrê-la e calou. Eu retomo a sua voz, pela sua confissão de uma tarde. Ele queria sua força direcionando águas oceânicas, nada de megalomania, apenas lamento pela impotência… Nós direcionamos os braços e estamos fixos com ele no pensamento – sua tez continua bronzeada de muitas caminhadas, há um som ininterrupto que sai de sua boca, mas não ouvimos – estamos observando que as águas foram serenando, estão mais calmas e menos salgadas… No entanto ele não está aqui. O impossível permanece impossível? Não, nós queremos acreditar e ele não estaria sozinho, seus sonhos sempre serão nossos sonhos, e falo por mim, me arrasto aos pesadelos também – porque isso é ter humildade de ter um mestre, de ouvir, aprender e viver sua própria vida. Mas ele não está aqui.

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Bruno Tolentino

10/09/2009 · Deixe um comentário

In Passim

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

O mundo como idéia. São Paulo: Globo, 2002. p. 250

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Personas

10/07/2009 · Deixe um comentário

Quando os críticos conservadores leram o que Camille Paglia escreveu – “Meu método é uma forma de sensacionalismo: tento rechear o intelecto de emoção, e extrair uma ampla gama de emoções do leitor” – não ficaram chocados em princípio. Mais interessante seria vê-los constrangidos ao ouvir “Uma ereção é um pensamento, e o orgasmo um ato de imaginação”, ou ainda: “O urinar masculino é uma forma de comentário”. Os críticos liberais e progressistas gostaram dos slogans e elogiaram as retomadas do pensamento de Sigmund Freud, mas, excessivamente antropológicos como são, detestaram ouvir “… a mulher jamais se iludiu (até recentemente) com a miragem de livre-arbítrio”, ou quase arrancaram os cabelos com a frase “O islamismo é sábio ao envolver de negro as mulheres pois o olho é a avenida de Eros”.

Imaginei essas reações quando foi publicado Personas Sexuais – Arte e Decadência de Nefertite a Emile Dickinson; Camille Paglia, escreveram, a aluna predileta de Harold Bloom. Camille Paglia, escrevo, a mulher que rescenseou as nascentes do sexo, a mulher que hierarquizou alguns deuses (não colocando-os em seus devidos lugares de forma que fosse conveniente para nossa raça tão antiga e extemporânea, mas pelo simples gesto de trazê-los novamente e lembrar raízes mais nobres), a mulher de teses ousadas foi a mulher que viu poder no corpo e viu impulsos nas grandes correntes filosóficas, e mais ainda em grandes trepadas que Madonna teria feito, e não tanto pela Daniela Mercury que é centrada em danças mais tribais. Elegemos a digressão como o método possível para entender a arte e nunca repelir a “célula de noite arcaica”.

Para tornar compreensível o abuso das metáforas (veja pelas frases acima que são com elas que construímos polêmicas e detectamos extremistas) devemos começar… pelo começo e fazer um esforço de aceitação que: no princípio não era o Verbo, mas a natureza – que o sexo é um subconjunto da natureza – que a sociedade é um esforço para conter a natureza – que “Sexualidade e erotismo formam a complexa intersecção de natureza e cultura” – que o sexo é daimônico, e a “consciência é uma pobre refém de seu envoltório de carne, cujos impulsos, circuitos e murmúrios secretos ela não pode deter nem acelerar”. Muita coisa para o jogo que Alexander (o personagem de Laranja Mecânica, não o Grande e pervertido conquistador) chamava de “o velho tira-e-bota?” Se você não está ficando agoniado convém seguir as linhas abaixo.

A arte, então, uma criação nossa. Não controlamos as forças que regem os ventos e as chuvas, o fogo dos vulcões, mas tentamos embelezar a nossa precariedade. Começamos no Egito, diz Camille, a pensar numa arma contra o fluxo da natureza – começamos ainda não separados na religião e no ritual e fomos ficando aguçados porque o possível sempre será insistir na objetificação e conceitualização dos seres e das coisas. Arte é fuga da agonia, e paganismo também. A Vênus de Willendorf (30.000 AC) será a primeira imagem da Grande-Mãe – e será redonda, sem rosto, tosca como a sua civilização era.

Sobre os aspectos abstratos do nascimento da arte pouco tenho a acrescentar: adoto a perspectiva ou não adoto, mas a escolha recairá sobre decisões que vão além: posso aceitar que alguma teoria permita uma mulher afegã sujeita ao uso da burca e da violência? (não posso); posso aceitar que o sadomasoquismo seja “um fenômeno arcaizante, devolvendo a imaginação à adoração pagã da natureza”? (posso); posso aceitar que pornografia e a perversão sejam “indícios da tendência masculina à conceitualização sexual, para mim uma faculdade biológica nas raízes da arte”? (terei que pensar melhor no assunto). Tenho que reconhecer a emoção que sinto ao ler “… o Egito apolíneo fez a primeira passagem do valor da femealidade para a feminilidade, uma avançada forma de arte erótica”; a frase levou minha mente para vagar nas diferenças entre Apolo e Dionisio, meditei ainda sobre os semi-deuses daimônides cuja maldição foi (a palavra) transformar-se em Diabo por essa influência própria do cristianismo, mas em sua raiz, como conselheiros de todos os homens, eles não eram nem bons nem maus.

Ainda não sei se é válido interpretar tudo à luz de uma essência. Sexo? Dinheiro? Liberdade? Moral? Mas quem é que vai rechaçar o conhecimento da história compreendida desde os fatos ficciosos das cosmogonias, quem dentre vocês não almeja ser grego, egipcío, romano, conhecer mais pelas palavras de Sócrates e ao mesmo tempo compreender que há um momento onde todo o conhecimento deve cessar?

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Mário e Fernando

10/01/2009 · 2 Comentários

S. Paulo, 9-X-42

E agora já posso lhe dizer que me sinto mais nobre e mais viril.  Será que me completarei? Meus gestos novos não estarão acaso errados?… Não me interessam semelhantes “esperanças”. Sei que, de conciência nítida e impiedosa, com toda a honestidade, é que decidi dos meus atos atuais. E com toda a paixão movo os meus gestos. Me sinto… feliz? Feliz. Feliz naquela exatidão da infelicidade que não se conforma, não se consola, não se contenta de milhoras transitórias, não cruza os braços e nem por sombra lembra esse pior entre os verbos, desistir.

*

B. Horizonte, 11 de Março de 1943

O que há de mais melancólico em tudo isso é que a gente sabe que “a mocidade vai acabar”, e chegará um dia em que todo esse entusiasmo nos parecerá pueril – então a gente se acomoda na vida, passando a sofrer bem, aprende a curtir o sofrimento interiormente, à aproveitá-lo como força criadora. Eu sei que isso é bom, é uma evolução, esse amadurecimento do espírito. Mas é tão melancólico saber que nosso espírito vai amadurecer…

*

Mário de Andrade e Fernando Sabino – Cartas a um jovem escritor e suas respostas. Ed. Record, 2003.

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