
“É uma perfeição absoluta, como que divina, o sabermos desfrutar lealmente do nosso ser”
Michel de Montaigne
Com a Europa como palco da grande guerra, ao ano de 1942, foi legado por Albert Camus – além de um argelino na resistência francesa – um livro que veio a influenciar gerações posteriores que já vivem num mundo pós-maniqueísta. A publicação de O Estrangeiro no meio de tanta destruição significou um corpo estranho, devemos compreender agora, em época de mocinhos e bandidos tão discerníveis. A influência incide ainda sobre este mundo contemporâneo, que percebemos ser existencialista, na medida em que abandona, por absoluta desnecessidade, utopias coletivistas de engenharia social. Em 1942, portanto, o Sr. Meursault está sofrendo sua vida como qualquer de nós que não compreende, na acepção mais forte do termo, valores alheios impostos pelo medo da baioneta: não é surpresa que, observando nossa geração democrática e liberal, um personagem atípico e deslocado de seu contexto mais cruel (a Guerra) revele-se tão familiar – e, de forma romântica, encontramos um mesmo tédio que não impede a ação, apenas dificulta extensas reflexões.
A história do Sr. Meursault, um homem julgado pela moral que os franceses afetaram em sua justiça, pode estar inserida em um tempo alargado pelo sem sentido. Uma tese duvidosa, como é a noção de fim da história, se admitida como válida para tal personagem ou para nós, leitores de Camus, não significará o fim da lembrança de uma moral histórica, tal como para aqueles jovens que queimaram tudo em maio de 1968.
Meursault é um perseguidor do silêncio, e sua pequena ética (direi: sua etiqueta) significa indiferença aos seres marcados pelo século passado – o século XX foi pródigo em criar certezas e slogans. Essas são ficções que pedem o grito e a anunciação. E, a todo aquele que passa incólume às agitações cotidianas, soa estranho o versar insistente sobre si mesmo. Será possível compreender este homem lacônico que pouco agride e pouco acolhe? Não há algo desumano naquilo que vive pacatamente, longe das ambições e das agonias? Albert Camus chamou o jogo da existência de absurdo, mostrou algumas regras e a falta de sentido delas, e demonstrou a inevitabilidade da perda.
Abrir a primeira página de O Estrangeiro é reconhecer-se na indiferença dos afetos. É o início do convívio com alguém muito simpático – basta não colocarmos nossa felicidade nas mãos do personagem – que responderia “sim” ou “não sei” para não chatear-se e nem multiplicar o número de mesquinharias que sempre foram o destino das relações humanas pedestres: o falar de si. Em momentos piores, o falar do outro. Poucos reconhecem a importância de se manterem calados. E, aos homens que foram condenados pela indiferença aos valores reacionários devemos prestar esta homenagem: Não abandonar apenas a moral velhaca nem deitar sorumbático como os kafkianos… Na medida do possível, devemos aproveitar um dia de sol na praia, beijar algum cabelo com gosto de sal e prestar-nos aos comentários sobre vestidos floridos. Principalmente, aproveitar o tempo de tolerância e cultivar um remendo de ética mínima, para não ser pego desprevenido no momento em que o sol forçar o dedo no gatilho – guardando para si lições melhores que a catequese.
Na primeira parte do livro, são muitos os conselhos nos atos prosaicos de Meursault, que indicam uma disposição natural para a elegância do silêncio: não multiplicar conversas desinteressantes, observar cinicamente os populares, conviver discretamente com a imoralidade, ser estoico nos momentos agradáveis que a vida nos proporciona – a etiqueta é uma síntese de experiência negativa e hábitos particulares. Porém, quando o sol insurge sua força, não há etiqueta ou moral que resista. Os tiros que Meursault dispara contra o árabe representam uma submissão, a de alguém cujos impulsos físicos perturbam com frequência os sentimentos.
“O fato de a sentença ter sido lida não às cinco da tarde mas às oito horas da noite, o fato de que poderia ter sido outra completamente diferente, de que fora determinada por homens que trocam de roupa, e que fora dada em nome de uma noção tão imprecisa quanto o povo francês (ou alemão ou chinês), tudo isto me parecia tirar muito da seriedade desta decisão. Era obrigado a reconhecer, no entanto, que, a partir do instante em que fora tomada, os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios quanto a presença desta parede ao longo da qual eu esmagava meu corpo”
Quando está preso, sujeito a tutela alheia por imposição de ser um criminoso, o personagem despe-se das etiquetas – entende nos castigos uma lógica que mesmo sendo compreensível, porque racional, não é a dele. A personagem de Camus, enquanto espera decidirem sobre sua vida – ou morte – terá apenas a lembrança saudável de seus hábitos (isso que chamo de etiqueta), agora confrontados com um moralismo que vai além da burocracia estatal; Se Joseph K. não sabe o crime que cometeu e nem o que fazer para redimir-se, à Meursault é pedido, de forma ridícula, que se curve diante da cruz de Cristo. É pedido mais: que minta para facilitar sua defesa. Pedem-lho que explique por que não chorou no enterro de sua mãe, por que não quis ver o cadáver e, até, por que não se recolheu ao túmulo por alguns minutos, após o enterro. Forçosamente, o pior estará por vir: as explicações são pedidas, de certa forma, buscando uma compreensão da justiça. Na hora do julgamento, o moralismo é revelado e as decisões tomadas implicam no destino fatalista do personagem. Antes e depois dessa decisão – caberá ao leitor saborear a condução da justiça – ainda é tempo de saber se nós, assim como Meursault, ao refletirmos sobre a condução de nossas vidas, diremos: “Estava certo de mim mesmo, certo da minha vida e desta morte que se aproximava” ou, ainda, “Tinha tido razão, ainda tinha razão, teria sempre razão”. Albert Camus não foi fraco o bastante para indicar um caminho único para o homem trilhar, sugeriu apenas que ele pudesse escolher quaisquer caminhos. A lição a ser apreendida é aquela que nos revela a exposição frágil do destino humano, e que, ao ser sintetizada pelas palavras de outro francês, acalenta um maior otimismo: “D’ailleurs, c’est toujour les autres qui meurent”.*
* O Estrangeiro / Albert Camus; tradução de Valerie Rumjanek. – 25ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2004.
* “Por outro lado, são sempre os outros que morrem” – citando lápide de Marcel Duchamp.