Volta Quintana!

Nuvens (Jorge Luis Borges)

11/05/2009 · Deixe um comentário

Nuvens I

Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São nuvens as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também o que já está perdido.

*Tradução: Antonio Cicero (?)

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Epitáfio para literatos

10/30/2009 · Deixe um comentário

Falar dele é muito difícil. Ele cavalgava sobre os amigos e não tratava a gente tão diferente dos seus inimigos, que eram muitos – ele os cultivava e sentia certo orgulho de ser assim. Sua doçura, somente para quem convivia todos os dias, como foram naqueles anos, uma doçura que cessava e às vezes não, ele não controlava; também ser doce para ele era como cavalgar: lembrar, tocar, falar e falar muito. Nunca chorar nem demonstrar comoção, essa rudeza ampliava-lhe os inimigos – tinha-os no trabalho, em casa, nos bares, onde pode arrecadá-los. E temos sido fiéis à ele, da nossa maneira, que carrega nas nossas palavras ainda um medo… Como se ele pudesse levantar do túmulo e dizer algumas barbaridades sobre a gente, possivelmente verdadeiras, segredos e falsidades que os cavalos trazem em sua natureza.

Ele me ensinou o que eu precisava ouvir, e ensinou na hora certa. Incidem sobre os meus atos as suas avaliações, o que ele soube do mundo, e a parte pronunciável é o meu saber, a minha desolação – compartilhávamos também o modo de educação paterna que Borges teve a felicidade de receber: Os filhos é que educam os pais. Por levarmos a cabo os preceitos, sabíamos dos erros quase instantaneamente, e eles eram cometidos, pessoas acabavam magoadas, o mundo com um grande peso, mas o mundo de coisas que aconteciam de forma violenta e romântica. Nunca mais poderei agradecer-lhe (e ouvir sua resposta sarcástica pela demonstração de afeto), eu que nunca de fato o agradeci, por tudo que aprendi e que foi a sapiência da minha solidão. E sei dele podre, comido pela terra, sem mistificação… Tudo bem, um pouco há, mas o essencial para ilustrar o homem, meu amigo que não terá vaga no céu, e que disse uma vez “Me deixem apodrecer”.

Apodrece agora, longe da ressurreição, vais morar nas memórias das gentes, porque aqui só ficaram os covardes, aqui não pronunciamos o impronunciável, nossos atentados de cinismo e a crueldade, revelam: quando avançamos está visível o nosso desespero. Ele nunca desesperou, em nenhum momento ouvimos pedido de clemência: quis ser a causa de sua dor, quis praticá-la, quis sofrê-la e calou. Eu retomo a sua voz, pela sua confissão de uma tarde. Ele queria sua força direcionando águas oceânicas, nada de megalomania, apenas lamento pela impotência… Nós direcionamos os braços e estamos fixos com ele no pensamento – sua tez continua bronzeada de muitas caminhadas, há um som ininterrupto que sai de sua boca, mas não ouvimos – estamos observando que as águas foram serenando, estão mais calmas e menos salgadas… No entanto ele não está aqui. O impossível permanece impossível? Não, nós queremos acreditar e ele não estaria sozinho, seus sonhos sempre serão nossos sonhos, e falo por mim, me arrasto aos pesadelos também – porque isso é ter humildade de ter um mestre, de ouvir, aprender e viver sua própria vida. Mas ele não está aqui.

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Bruno Tolentino

10/09/2009 · Deixe um comentário

In Passim

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

O mundo como idéia. São Paulo: Globo, 2002. p. 250

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Personas

10/07/2009 · Deixe um comentário

Quando os críticos conservadores leram o que Camille Paglia escreveu – “Meu método é uma forma de sensacionalismo: tento rechear o intelecto de emoção, e extrair uma ampla gama de emoções do leitor” – não ficaram chocados em princípio. Mais interessante seria vê-los constrangidos ao ouvir “Uma ereção é um pensamento, e o orgasmo um ato de imaginação”, ou ainda: “O urinar masculino é uma forma de comentário”. Os críticos liberais e progressistas gostaram dos slogans e elogiaram as retomadas do pensamento de Sigmund Freud, mas, excessivamente antropológicos como são, detestaram ouvir “… a mulher jamais se iludiu (até recentemente) com a miragem de livre-arbítrio”, ou quase arrancaram os cabelos com a frase “O islamismo é sábio ao envolver de negro as mulheres pois o olho é a avenida de Eros”.

Imaginei essas reações quando foi publicado Personas Sexuais – Arte e Decadência de Nefertite a Emile Dickinson; Camille Paglia, escreveram, a aluna predileta de Harold Bloom. Camille Paglia, escrevo, a mulher que rescenseou as nascentes do sexo, a mulher que hierarquizou alguns deuses (não colocando-os em seus devidos lugares de forma que fosse conveniente para nossa raça tão antiga e extemporânea, mas pelo simples gesto de trazê-los novamente e lembrar raízes mais nobres), a mulher de teses ousadas foi a mulher que viu poder no corpo e viu impulsos nas grandes correntes filosóficas, e mais ainda em grandes trepadas que Madonna teria feito, e não tanto pela Daniela Mercury que é centrada em danças mais tribais. Elegemos a digressão como o método possível para entender a arte e nunca repelir a “célula de noite arcaica”.

Para tornar compreensível o abuso das metáforas (veja pelas frases acima que são com elas que construímos polêmicas e detectamos extremistas) devemos começar… pelo começo e fazer um esforço de aceitação que: no princípio não era o Verbo, mas a natureza – que o sexo é um subconjunto da natureza – que a sociedade é um esforço para conter a natureza – que “Sexualidade e erotismo formam a complexa intersecção de natureza e cultura” – que o sexo é daimônico, e a “consciência é uma pobre refém de seu envoltório de carne, cujos impulsos, circuitos e murmúrios secretos ela não pode deter nem acelerar”. Muita coisa para o jogo que Alexander (o personagem de Laranja Mecânica, não o Grande e pervertido conquistador) chamava de “o velho tira-e-bota?” Se você não está ficando agoniado convém seguir as linhas abaixo.

A arte, então, uma criação nossa. Não controlamos as forças que regem os ventos e as chuvas, o fogo dos vulcões, mas tentamos embelezar a nossa precariedade. Começamos no Egito, diz Camille, a pensar numa arma contra o fluxo da natureza – começamos ainda não separados na religião e no ritual e fomos ficando aguçados porque o possível sempre será insistir na objetificação e conceitualização dos seres e das coisas. Arte é fuga da agonia, e paganismo também. A Vênus de Willendorf (30.000 AC) será a primeira imagem da Grande-Mãe – e será redonda, sem rosto, tosca como a sua civilização era.

Sobre os aspectos abstratos do nascimento da arte pouco tenho a acrescentar: adoto a perspectiva ou não adoto, mas a escolha recairá sobre decisões que vão além: posso aceitar que alguma teoria permita uma mulher afegã sujeita ao uso da burca e da violência? (não posso); posso aceitar que o sadomasoquismo seja “um fenômeno arcaizante, devolvendo a imaginação à adoração pagã da natureza”? (posso); posso aceitar que pornografia e a perversão sejam “indícios da tendência masculina à conceitualização sexual, para mim uma faculdade biológica nas raízes da arte”? (terei que pensar melhor no assunto). Tenho que reconhecer a emoção que sinto ao ler “… o Egito apolíneo fez a primeira passagem do valor da femealidade para a feminilidade, uma avançada forma de arte erótica”; a frase levou minha mente para vagar nas diferenças entre Apolo e Dionisio, meditei ainda sobre os semi-deuses daimônides cuja maldição foi (a palavra) transformar-se em Diabo por essa influência própria do cristianismo, mas em sua raiz, como conselheiros de todos os homens, eles não eram nem bons nem maus.

Ainda não sei se é válido interpretar tudo à luz de uma essência. Sexo? Dinheiro? Liberdade? Moral? Mas quem é que vai rechaçar o conhecimento da história compreendida desde os fatos ficciosos das cosmogonias, quem dentre vocês não almeja ser grego, egipcío, romano, conhecer mais pelas palavras de Sócrates e ao mesmo tempo compreender que há um momento onde todo o conhecimento deve cessar?

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Mário e Fernando

10/01/2009 · 2 Comentários

S. Paulo, 9-X-42

E agora já posso lhe dizer que me sinto mais nobre e mais viril.  Será que me completarei? Meus gestos novos não estarão acaso errados?… Não me interessam semelhantes “esperanças”. Sei que, de conciência nítida e impiedosa, com toda a honestidade, é que decidi dos meus atos atuais. E com toda a paixão movo os meus gestos. Me sinto… feliz? Feliz. Feliz naquela exatidão da infelicidade que não se conforma, não se consola, não se contenta de milhoras transitórias, não cruza os braços e nem por sombra lembra esse pior entre os verbos, desistir.

*

B. Horizonte, 11 de Março de 1943

O que há de mais melancólico em tudo isso é que a gente sabe que “a mocidade vai acabar”, e chegará um dia em que todo esse entusiasmo nos parecerá pueril – então a gente se acomoda na vida, passando a sofrer bem, aprende a curtir o sofrimento interiormente, à aproveitá-lo como força criadora. Eu sei que isso é bom, é uma evolução, esse amadurecimento do espírito. Mas é tão melancólico saber que nosso espírito vai amadurecer…

*

Mário de Andrade e Fernando Sabino – Cartas a um jovem escritor e suas respostas. Ed. Record, 2003.

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Uma homenagem atrasada

09/14/2009 · Deixe um comentário

A última postagem do portal Insanus foi no dia 17 de agosto – e eu vim aqui reclamar. Não, eu vim aqui agradecer: encontrei esses rapazes e moças (que eu não conheço) pelo caminho e acompanhei as mudanças do site, os vôos livres, e principalmente o momento em que o fundador teve a vida interrompida – lamentei em silêncio, aqui de Santa Maria. Fica a admiração quase anônima de quem nem sabia direito o que era um blog e, algum tempo atrás, precisou de um modelo. Um obrigado.

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Verdades 49# (coleção particular)

09/13/2009 · Deixe um comentário

 

René Magritte - The Married Priest (1960)

René Magritte - The Married Priest (1960)

 

O caminho do ôntico para o agônico,

Você percorre de joelhos, o casto não percorre.

 

No caminho com inúmeras pedras, o devasso rasteja.

Mas, por um milagre atroz, ele chega antes.

 

O ôntico tende à castidade e ao solipcismo.

O agônico ao medo e ao delírio.

 

Dionísio irá te arrastar, companheiro fiel.

Apolo, magnânimo, asfaltará antes de dar seus passos.

 

O ôntico ainda não se refez do pecado.

O agônico será salvo pelo amor adequado.

 

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De onde vem a inspiração?

09/12/2009 · Deixe um comentário

É uma pergunta que não me atrevo a responder. O que vou escrever é um mero relato de caso, uma experiência que pode não ultrapassar os meus limites, mas sendo os meus, é no seu caso ou acaso que pensarei. Assim, duas coisas manterei afastadas de minha reflexão: a poética de Aristóteles e seus desenvolvimentos – simplesmente porque seus ensinamentos estão baseados em “como fizeram os poetas da antiguidade” ou “como reconhecer aqueles que fizeram do modo mais perfeito” – e as explicações mitológicas, antigas ou modernas, sobre as musas e outros mitos (mais aproximado seria pensar no período romântico, como vocês irão perceber).

 

Lá por 2004, quando comecei um blog chamado “memória de babel” e prossegui com outro chamado “fromnauticus”, me atrevi a escrever uma poesia – uma única poesia – que não me desagradou completamente. E poucas vezes repeti o ato, com resultados sempre mais obscuros. Mas aquele poema – “eu me destruí aos poucos tentando voar” – não diferindo na essência dos meus poemas da semana passada, era e continua sendo resultado de uma só inspiração. Um poema de alguém muito simplório, evidente, sem os conhecimentos acumulados em pelo menos cinco anos de obsessões antiquadas e, sinceramente, nobres. Mas isso de conhecimento acumulado e erudição, de qualquer tamanho, é coisa que o poeta pode bem suprimir quando for fazer autocritica (estou fazendo).

 

Retiro o desejo vago de querer ser extemporâneo – retiro a sugestão de que o poético é uma forma de vaticínio, e o poeta um profeta – retiro o doce jogo de antagonismos: vida-morte, corpo-matéria, etc… Mas qual característica que ao ser retirada não deixará o poema ser o que nasceu para ser: a minha marca, minha inspiração? Creio ser impossível saber. Tenho uma intuição vaga e que não deixa de ser uma fuga. Aliás, é um entendimento que outros trouxeram. Seria isto que Dilthey chamou Vida? Seria mesmo, se ao poeta for permitido mudar as palavras e abdicar dos argumentos (abdicar do alemão também). Eu chamaria “lava correndo nas veias” ou “sensibilidade aflorada” e já estaria fazendo mau uso das metáforas. Mas eu não chamo e nem penso. Os anos em que aprendi foram anos de má poesia, de pouca poesia e excesso de argumentos. Estou em paz de saber que algo vem de algum lugar. Os lógicos diriam ser isso uma prova de existência? Acho que eles ainda estão discutindo, mas aqui o sol está baixando, a lua está vindo da Ásia, milhões de coisas me emocionam e nem um dia é igual ao outro.

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Retorno de Guerreiros

09/09/2009 · Deixe um comentário

Oswaldo Goeldi - Guarda-chuva

Oswaldo Goeldi - Guarda-chuva

 *

Ainda terei tempo de fazer as malas e me despedir

deixarei bilhetes e cartas para embelezar o partir

cada um que compartilhou meu afeto jamais saberá

o nome da cidade californiana que é feita de sonhos

e laranjais (você deve tentar sorrir)

 

Direi: É em orange country a casa da donzela e do cowboy

mais não me perguntem, minha responsabilidade é apenas

indicar a existência de um lugar onírico, mas

a minha sensibilidade ainda está construindo essas ruínas

 

Como flui doce o retorno para casa e

como foi exato aquilo que Odisseu recebeu,

também não encontrarei Poseidôn em fúria

porque ele não habita dentro de mim

o meu amor é que reconstrói as ruínas de Ítaca quando acorda

 

Esquadras que partem levando os brutos e os poetas

na descida de nossa vida os homens emocionados

transformam rústicos em velhos estetas, que na luz

do meu devir será sua chance eterna de descobrir

(que você deve tentar sorrir)

 

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Humildade pelo Sol

09/07/2009 · Deixe um comentário

Farnese de Andrade - Nú, 1985

Farnese de Andrade - Nú, 1985

I

Não é a essência da história o homem

Não é a essência do homem algo que deva ser revelado

É, por outro lado, um mesmo dia ontem e hoje

É, pelo seu regaço, algo de amor velado

 

Não é a essência de Cristo a chaga

Não é a essência do herói a praga

É, por outro lado, uma vitória de cruz e espada

É, estou sentindo, a força do vento que o fogo apaga

 

Não é a cunhagem da existência algo maior que o fardo da essência?

Procurar o sentido algo que vive melhor que o medo repartido?

O Sol é que não tem lado, íntimo superior do tolo quadrado,

o nosso Sol jaz espatifado, ele ainda brilhará quando o mundo tiver terminado

II

Terrível o calor, monstruoso e divino quando me aproximo e sinto

Sinto a chama e ainda a tentação do ouro

Sinto na dança um desejo absurdo de ter jardim e ser mouro

Terrível o amor, gracioso e sibilino quando me aproximo e sinto

 

Incrível o possuir, um verbo apenas e tanto galope

deitei-me na terra e pressenti cavalarias, por dias

Foi incrível que patas e passos ressoassem no horizonte

pois queixei-me dos prisioneiros que obscureciam nossa fronte

III

Quatro elementos, estou dirigindo a Guerra de Salamina e levo todos os destacamentos

Quantos sentimentos? Infinitos, mas breves e apropriados momentos de senti-los

aqui onde desfaleço pelo lirismo, aqui onde a força de Aquiles revelou-se tropeço

Aqui você sempre poderá estar e será mais, será algo como uma causa primeira

IV

Lutei, perdi, venci, sofri

mais que tudo li poesia de gente com o coração na mão

Lutei, venci, venci, venci

mas vê-los transformados em razão foi o que mais temi

 

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