
Farnese de Andrade - Nú, 1985
I
Não é a essência da história o homem
Não é a essência do homem algo que deva ser revelado
É, por outro lado, um mesmo dia ontem e hoje
É, pelo seu regaço, algo de amor velado
Não é a essência de Cristo a chaga
Não é a essência do herói a praga
É, por outro lado, uma vitória de cruz e espada
É, estou sentindo, a força do vento que o fogo apaga
Não é a cunhagem da existência algo maior que o fardo da essência?
Procurar o sentido algo que vive melhor que o medo repartido?
O Sol é que não tem lado, íntimo superior do tolo quadrado,
o nosso Sol jaz espatifado, ele ainda brilhará quando o mundo tiver terminado
II
Terrível o calor, monstruoso e divino quando me aproximo e sinto
Sinto a chama e ainda a tentação do ouro
Sinto na dança um desejo absurdo de ter jardim e ser mouro
Terrível o amor, gracioso e sibilino quando me aproximo e sinto
Incrível o possuir, um verbo apenas e tanto galope
deitei-me na terra e pressenti cavalarias, por dias
Foi incrível que patas e passos ressoassem no horizonte
pois queixei-me dos prisioneiros que obscureciam nossa fronte
III
Quatro elementos, estou dirigindo a Guerra de Salamina e levo todos os destacamentos
Quantos sentimentos? Infinitos, mas breves e apropriados momentos de senti-los
aqui onde desfaleço pelo lirismo, aqui onde a força de Aquiles revelou-se tropeço
Aqui você sempre poderá estar e será mais, será algo como uma causa primeira
IV
Lutei, perdi, venci, sofri
mais que tudo li poesia de gente com o coração na mão
Lutei, venci, venci, venci
mas vê-los transformados em razão foi o que mais temi